


Nos últimos meses, assistimos as mulheres da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e da Universidade de São Paulo bradarem e lutarem contra a violência sexual nos campi. A mobilização dessas mulheres é intensa, as respostas institucionais são insuficientes e o debate nacional sobre o tema ainda é incipiente.
Sabemos que a a violência contra a mulher ocorre em universidades em todo o país, não apenas na USP ou na Rural. É resultado da cultura do assédio e da violência que permeia nossa sociedade machista. No entanto, não existem estatísticas confiáveis sobre estes crimes que permitam que saibamos mais sobre onde, quando e como a violência contra a mulher é praticada no Brasil. Poucos casos são oficialmente denunciados e instituições frequentemente são pouco transparentes diante destes casos.
Para combater de verdade o problema, precisamos saber mais sobre ele. Pra isso, precisamos nos unir. Precisamos lutar juntas. Criamos este espaço para que mulheres contem suas histórias. Queremos construir juntas um mapa da violência sexual nas universidades brasileiras.
Um mapa colaborativo pode ser uma ferramenta muito potente. Nos dará mais informações sobre o tamanho do problema e nos ajudará a buscar soluções. Além disso, pode conectar as redes mobilizadas que já desenvolvem trabalhos nessa agenda às mulheres que enfrentam sozinhas as cicatrizes físicas e emocionais da violência cometida contra elas nas universidades.
Neste espaço, mulheres que foram vítimas de violência sexual nas universidades brasileiras podem dividir suas histórias. Quando e onde aconteceram.
Conte a sua história e vamos mudar a história.


O Mapa da Violência 2015 mostra que, entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas registrou um aumento de 21%. Em 2013, foram registradas 4.762 mortes de mulheres. A média para este ano foi de 13 homicídios femininos por dia. Estes dados garantem ao Brasil seu lugar entre os dez primeiros países no ranking mundial de assassinatos de mulheres.



O IPEA, em pesquisa lançada em 2014, estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil, sendo que apenas 10% dos casos são notificados. 89% das vítimas destes atos violentos são mulheres. 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou conhecidos da vítima. Ainda de acordo com o IPEA, 58,5% dos brasileiros concordam com a frase: “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.
Como a cultura do assédio, a violência contra a mulher e o machismo se manifestam nas universidades?
As universidades, em todo o mundo, são focos de violência sexual. Os casos não se restringem a uma universidade ou cidade específicas, elas estão em toda parte. Nos Estados Unidos, segundo dados das próprias universidades do país, uma em cada cinco estudantes já foi atacada. Mas falar sobre isso é muito difícil.
Apenas 12% denunciam formalmente o ocorrido e a resposta institucional para estes poucos casos notificados é bastante insatisfatória. Universidades renomadas como Harvard, Princeton e Berkeley (dentre outras 83) foram investigadas por suspeita de ignorar casos de assédio sexual em suas dependências.
O Brasil enfrenta uma situação igualmente trágica. São muitos casos de violência sexual nas universidades de todo o país, é grande a dificuldade em falar sobre o tema e são insuficientemente claras e rigorosas as respostas das instituições. Muitas redes de mulheres vêm se articulando em torno do tema, mas a situação só agora está sendo visibilizada no Brasil. De acordo com a Rede Não Cala, houve na USP, por exemplo, casos de estupro planejados (a vítima foi dopada e abusada por colegas) e casos de estupro em que os agressores abusaram de colegas que não podiam reagir por estarem dormindo, alcoolizadas ou tendo feito uso de outras drogas (casos que podem ser enquadrados na definição legal mais recente de estupro). Em sua maioria, essas situações não foram registradas como denúncias formais. A universidade ainda tem problemas de assédio sexual entre professores e alunas, além de denúncias acerca de machismo, racismo e homofobia nas salas de aula e outros espaços de convivência. O mesmo se repete em universidades em todo o Brasil.
Universidades não podem ser omissas com relação à violência contra a mulher praticada dentro do campus. Em especial, é inaceitável a falta de apuração e punição dos casos de agressões cometidas por alunos, professores e funcionários - membros das comunidades universitárias. Igualmente, é urgente a promoção de um debate público nacional sobre o tema.


O #AgoraÉQueSãoElas surgiu em 2015, quando mulheres ocuparam, por uma semana, espaços de fala masculinos na grande imprensa e nas mídias alternativas. Desde então, o grupo de feministas que liderou esta ação seguem lutando pelos direitos da mulher - em especial o direito de contar suas histórias sem mediadores. O #AgoraÉQueSãoElas mantém uma coluna digital na Folha de S. Paulo, um espaço para vozes femininas e feministas falarem de política e desigualdade de gênero.
A coluna é editada por Alessandra Orofino, Ana Carolina Evangelista, Antonia Pellegrino e Manoela Miklos.
